Etapas de uma Pesquisa Científica

Em uma postagem de 2018, eu falei sobre algumas recomendações para a realização de trabalhos acadêmicos. Este post traz uma atualização dessas recomendações de etapas para a elaboração de pesquisas científicas (artigos, monografias, dissertações, teses etc.). Apesar de serem recomendações focadas em trabalhos na área de arquitetura e urbanismo, podem ser aplicadas e adaptadas a outros campos de estudo.

Observação: as dicas aqui apresentadas são baseadas em leituras e na experiência acadêmica enquanto professor, pesquisador e orientador. Portanto, não são regras universais.

Este texto está dividido em 5 partes:

  • Parte 1: Hábitos e Ritos para Elaboração de uma Pesquisa Científica
  • Parte 2: A Escolha do tema de pesquisa, Orientador e Coautores
  • Parte 3: As seções de um trabalho científico
  • Parte 4: Sobre o estilo de escrita científica
  • Parte 5: Sobre a apresentação ou defesa de um trabalho

Parte 1: Hábitos e Ritos para Elaboração de uma Pesquisa Científica

Antes do processo de escrita e desenvolvimento da pesquisa científica, é importante que o pesquisador desenvolva bons hábitos e ritos que facilitem as etapas posteriores:

1.1 – Leia bastante sobre o tema que deseja trabalhar

Qualquer trabalho científico requer um mínimo de conhecimento prévio sobre o que se deseja escrever sobre. Independente de qual tema seja, busque identificar os autores principais do tema (literatura seminal) e como está o desenvolvimento atual (estado da arte). Se familiarize com as delimitações dos conceitos centrais e possíveis tipos de abordagens, para identificar o caminho que deseja seguir.

A melhor maneira de se acostumar com o estilo acadêmico de escrita é ler outros trabalhos. Isso vai fazer com que você se aproprie melhor do seu tema, da estrutura do sua pesquisa e você ainda aprende recursos de escrita (termos e construção de orações, por exemplo). Busque trabalhos de temática similar, para que você, além de poder compreender o estilo de escrita, organização de ideias etc., possa também começar a observar as referências que estão sendo utilizadas.

1.2 – Leia e escreva diariamente

Não se produz uma pesquisa científica “da noite pro dia”. É necessário produzir constantemente, principalmente quando as ideias surgem. Para alunos de graduação, que ainda não desenvolveram o hábito da escrita científica, recomendo escrever, pelo menos, 1 parágrafo por dia. Em uma semana, é possível desenvolver entre 1 página e meia a duas. Isto garante também que haverá menos riscos de acúmulo de conteúdo e material a ser desenvolvido posteriormente. Com o passar do tempo e costume, é possível produzir algumas páginas por dia (mas lembre-se em focar em qualidade, e não em quantidade);

Não se apresse excessivamente em escrever: por mais que hajam prazos (por vezes curtos) para entrega de trabalhos e submissões de artigos, o importante é ir escrevendo com qualidade. A evolução de sua escrita ocorre conforme for tomando o hábito e se apropriando de como redigir melhor um trabalho acadêmico.

1.3 – Crie uma biblioteca pessoal

Tenha livros, revistas, artigos e cadernos técnicos que sejam da sua área de interesse. Organize o material de forma lógica: para livros impressos, tenha uma estante ou um local específico para guarda-los. Em caso de material digital, crie uma pasta (de preferência com um nome e local de fácil acesso). Se for necessário, crie subpastas e organize por tipo (livros, artigos, cadernos técnicos, leis, etc) ou por temas.

Outra dica é renomear os arquivos, para facilitar a busca. É comum, no meio acadêmico, nos lembrarmos de um trabalho pelo sobrenome do autor e ano. Abaixo, um exemplo de como você pode nomear os arquivos:

Autor (Ano). Título do Trabalho.pdf

Tenha também uma pasta com as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) referentes à estruturação de trabalhos acadêmicos. São um importante material de consulta durante a escrita de uma pesquisa científica. Abaixo, listamos as principais normas referentes à trabalhos acadêmicos:

NBR 14724: Informação e documentação — Trabalhos acadêmicos — Apresentação;
NBR 6023: Informação e documentação – Referências – Elaboração;
NBR 6024: Informação e documentação – Numeração progressiva das seções de um documento escrito – Apresentação;
NBR 6027: Informação e documentação – Sumário – Apresentação;
NBR 6028: Informação e documentação – Resumo – Apresentação;
NBR 6034: Informação e documentação – Índice – Apresentação;
NBR 10520: Informação e documentação – Citações em documentos – Apresentação;
NBR 12225: Informação e documentação – Lombada – Apresentação

1.4 – Sempre revise o material escrito

É possível fazer uma analogia da escrita científica com uma pedra bruta: ela precisa, ao longo do tempo, se lapidada, até tornar a forma que o escultor deseja. Revisar e corrigir o texto produzido é uma forma de autocrítica e de identificar como aquele material pode se tornar mais bem escrito, tanto em termos de legibilidade como de estilo. Isto faz com que o pesquisador consiga identificar os melhores termos a serem utilizados. Esta habilidade de revisão é importante para professores pesquisadores que atuam como orientadores ou revisores de trabalho, para que possam oferecer as melhores contribuições ao texto avaliado.

Neste sentido, não se apegue às primeiras palavras redigidas. Tenha o espírito de que sempre haverá algo que poderá ser melhorado. Isto pode, inclusive, evitar possíveis bloqueios de escrita (“preciso corrigir, mas para mim já está bom. O que devo fazer?”). Por outro lado, estabeleça um limite para correções, a fim de evitar perder prazos e atrasar este trabalho e outras demandas paralelas.

Bons hábitos de leitura e escrita ajudam no desenvolvimento de pesquisas científicas. Foto: Thought Catalog (2017) / Unplash

Parte 2: A Escolha do tema de pesquisa, Orientador e Coautores

A priori, todo e qualquer tema dentro de um determinado campo de estudo/ciência é passível de uma pesquisa científica, desde que haja um problema de pesquisa bem definido e uma justificativa. O importante é verificar para quem seu trabalho pode ser útil, e que contribuição você quer/pode dar à ciência com esta pesquisa.

2.1 – Escolha um tema relevante e de seu interesse

Toda e qualquer área do conhecimento possui um conjunto de subáreas e temas que podem ser explorados cientificamente. Identifique que área ou tema você tem mais tem afinidade: isso vai ajudar na motivação de realizar a pesquisa ao longo do tempo. Em caso de dúvida, consulte colegas e professores, mas tenha em mente: a decisão final da escolha é sua.

No campo da arquitetura e urbanismo, o espaço e a sociedade são os objetos empíricos de estudo do pesquisador. Observe o que tem acontecido ao seu redor e verifique fenômenos ou acontecimentos relevantes para a sociedade (um tema que está sendo muito debatido, a aprovação de uma lei, um fenômeno social que está em destaque).

Outra alternativa para a delimitação do tema é identificar a área de sua formação que você mais se sentiria à vontade em se aprofundar, seja por um gosto pessoal ou por uma possível aplicação profissional. Independente disso, é importante que haja um problema relevante a ser investigado e elucidado.

2.2 Saiba delimitar o tamanho da pesquisa

Uma pesquisa feita para uma disciplina da graduação tem profundidade e tempo de elaboração diferente de uma tese de doutorado. Na hora de delimitar o recorte do tema, veja se você tem condições de completar os objetivos traçados. Lembre-se: nenhuma pesquisa é boa o suficiente para explicar todos os fenômenos da ciência. Faça aquilo que está ao seu alcance.

Toda pesquisa requer uma certa originalidade, porém, se estiver dando os primeiros passos na vida acadêmica, evite os extremos: temas exaustivamente explorados terão mais conteúdo disponível, mas irão requerer um esforço maior para se encontrar um viés original o bastante para validar a ideia; temas pouco estudados podem requerer um nível de pesquisa mais profundo e demorado.

A delimitação do tamanho da pesquisa é uma tarefa difícil para alunos de graduação, pois ainda não têm experiência suficiente para medir a quantidade de informação a ser pesquisada em relação aos prazos. Peça ajuda aos professores e colegas, se necessário. Cada pesquisa precisa ter o tamanho adequado à etapa acadêmica e prazos estabelecidos. Não faça pesquisas com temas rasos demais por achar que é “mais fácil e rápido”, nem se proponha a fazer um trabalho mais longo e complexo que os prazos permitem cumprir.

Escolha um tema importante de pesquisa e que você também goste. Foto: Becca Tapert (2017) / Unsplash

2.3 Escolha um bom orientador

Em monografias, estágios, dissertações e teses, por exemplo, o aluno precisa escolher um professor orientador, que irá supervisionar a pesquisa científica. Procure professores que já tenham desenvolvido pesquisas e artigos na sua área de interesse. Ele é a pessoa que vai lhe indicar as melhores leituras, e é quem vai entender o que você planeja pesquisar.

Pense também na facilidade de relacionamento com o orientador: algumas pesquisas podem levar um semestre inteiro (ou mais) para serem desenvolvidos, então é importante que esteja trabalhando com alguém que tenha facilidade de contato. Observação: o professor orientador não necessariamente será seu amigo, mas é preciso manter um diálogo aberto, sobre os rumos do trabalho, as descobertas e dificuldades encontradas.

Uma dica interessante é pesquisar o Currículo Lattes do professor que deseja como orientador. Você poderá ver quais as principais áreas de atuação e orientação (se estas áreas são de interesse comum entre vocês). Veja também a produção científica dele: professores que costumam publicar artigos científicos com frequência tendem a estar mais atualizados em relação ao estado da arte do tema e possuir melhores habilidades de escrita e crítica, que são importantes nos momentos de orientação. Ele também poderá lhe ajudar nas suas publicações de artigos.

2.4 – Busque colaborações para o desenvolvimento de artigos

Caso esteja desenvolvendo um artigo (ou um trabalho que não envolva obrigatoriamente a figura de um professor orientador), você pode buscar pessoas para desenvolver o trabalho em coautoria. As dicas são as mesmas: vejam pessoas que dominam e tem interesse no tema e que você tenha facilidade de relacionamento. É vantajoso para todas as partes envolvidas, pois a contribuição científica e a construção de um currículo sólido será compartilhada.

Há também uma vantagem financeira: muitas revistas estão cobrando taxas para a publicação do artigos, e congressos tendem a cobrar pela inscrição no evento. Quando o artigo é feito por vários autores, o custo rateado por pessoa fica menor, o que viabiliza economicamente a publicação do trabalho. Mas não insira coautores que não contribuíram diretamente no trabalho apenas visando redução de custos.

Evite compor parcerias e coautoria de publicação “por amizade”: por mais que a facilidade de relacionamento possa parecer um fator motivacional, mas a dinâmica de trabalho pode não ocorrer como desejado. Ao menos tempo, convidar uma pessoa muito competente mas de difícil relacionamento pode também fazer com que o andamento das atividades seja comprometido. É necessário buscar um “meio-termo”.

Para uma melhor distribuição das responsabilidades de cada autor do artigo, é possível utilizar a Taxonomia das Funções do Colaborador – CRediT, para designar o que cada pessoa irá fazer no trabalho. Há revistas que já exigem a indicação das funções pelo método da taxonomia, como forma de verificar a atuação de cada autor.

Procure um bom professor orientador ou parceiros para realizar a pesquisa. Foto: Kaleidico (2018) / Unsplash

Parte 3: As seções de um trabalho científico

Um ponto de partida para começar a escrever uma pesquisa científica é responder quatro perguntas básicas, que estruturarão todas as etapas do trabalho: O quê? Por quê? Para quê? Como?

A introdução apresenta o tema da pesquisa e a problema a ser investigado (o que é o problema? O que será pesquisado? Para quê realizar esta pesquisa Por que realizar esta pesquisa?); o referencial teórico (ou revisão de literatura) consiste na revisão dos principais autores sobre o tema (o que já se sabe sobre o tema?); a metodologia mostra as etapas e instrumentos de realização da pesquisa (como a pesquisa será feita?); os resultados (ou achados) apresenta as descobertas feitas na pesquisa (o que se descobriu com a pesquisa?); as considerações finais são o fechamento do trabalho, indicando o que foi encontrado, as contribuições e limitações da pesquisa (o que se aprendeu com esta pesquisa?).

A seguir, cada uma das etapas descritas será detalhada.

3.1 – Introdução

A introdução expõe o problema de pesquisa e os objetivos que serão alcançados. Nesta seção, o leitor deve ter uma visão geral e sucinta do trabalho, que serão aprofundadas posteriormente.

A introdução pode ser escrita a partir de diferentes modelos. O modelo da Pirâmide Inversa traz a contextualização em uma escala mais ampla no começo, e que vai se tornando mais direcionada/focada no problema de pesquisa. Em trabalhos de arquitetura e urbanismo (minha área de atuação), isto indica um direcionamento para a escala local (da cidade, do bairro, da rua, da edificação etc.) que está o objeto empírico de estudo.

Modelo da pirâmide inversa do problema de pesquisa.

Outra forma de estrutura a introdução é pelo modelo de lacunas. De acordo com Creswell e Creswell (2021), a introdução é composta por 5 partes: a primeira é a apresentação do problema de pesquisa (que pode vir com uma pergunta); a segunda é a revisão dos estudos que abordam o problema, contextualizando-o; a terceira é a indicação das lacunas encontradas (seja no tema, no objeto, na teoria, na metodologia, etc.); a quarta é a indicação da importância do estudo, justificando a necessidade de sua execução; e a quinta é a apresentação dos objetivos da pesquisa.

Modelo de lacunas.

Independente do modelo a ser aplicado, o importante é que o problema de pesquisa e os objetivos estejam claros.

O problema de pesquisa é uma das partes mais importantes de uma pesquisa científica, pois é ela quem “dá o motivo” para a existência do trabalho a ser realizada. É comum que o problema se apresente como uma ou mais perguntas (o que também não é uma regra), cuja resposta não é escrita de imediato: a resposta são os achados e resultados da pesquisa em si. Evite querer responder uma questão que é um fato ou um pressuposto (ou seja, algo que já se tem conhecimento): a pergunta-problema deve ser direcionada para uma questão ainda não elucidada, independente da escala e do grau de originalidade da pesquisa.

3.2 – Referencial Teórico / Revisão de Literatura

Nesta seção, o pesquisador deve apresentar um panorama teórico-metodológico sobre o tema abordado, a partir de estudos já publicados. Assim, os eixos de escrita da revisão devem abordar os principais conceitos, abordagens, pesquisas correlatos, medidas/parâmetros utilizados (quando aplicável), etc. Existem dois tipos básicos de referências bibliográficas:

  • Literatura seminal: são os autores fundamentais de um determinado tema. Normalmente são livros, mas também podem ser artigos de periódicos, congressos etc. Podem ser publicações antigas, desde que ainda sejam relevantes e atuais para a temática trabalhada.
  • Estado da arte: são as pesquisas mais atuais e avançadas sobre o tema, publicados nos últimos 3 a 5 anos. É mais comum que sejam, atualmente, artigos de periódicos e congressos, mas podem aparecer também na forma de livros.

Utilize os dois tipos de literatura, pois ambos desempenham funções diferentes no referencial teórico: a literatura seminal apresenta ao leito o que há de consolidado sobre o tema e seus principais autores, enquanto que o estado da arte mostra até que ponto está a pesquisa nesse tema. Para que sua pesquisa esteja o mais atualizada possível, tente utilizar entre 70% e 75% de referências que se enquadrem como estado da arte. Estes valores não são uma regra, e sim sugestões. Dependendo da área do conhecimento ou tema, pode haver poucas publicações recentes.

No referencial teórico, tente buscar o máximo possível de referências relevantes sobre o tema, pois a discussão e comparação entre os estudos citados trará um melhor embasamento para a sua pesquisa. Dito isso, evite citar o mesmo autor várias vezes, principalmente em parágrafos consecutivos. Isto empobrece a revisão e dá a impressão de que seu trabalho não tem apoio teórico-metodológico suficiente.

O importante é que o pesquisador traga apenas as referências e informações que são suficiente para a compreensão da pesquisa e do tema delimitado. Muitas vezes, como forma de “inflar” o trabalho (e “mostrar que fez o dever de casa”), sejam adicionados eixos, autores e publicações que são periféricos à temática abordada, cuja ausência no referencial teórico não traria prejuízo à compreensão da pesquisa como um todo. Não meça seu trabalho pelo número de páginas escritas, e sim pela qualidade e relevância do que foi inserido.

Existem, atualmente, diversos mecanismos de busca acadêmicos confiáveis, a exemplo do Google Acadêmico, Periódicos Capes, a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), dentre outros. Abaixo, tem-se o link de alguns posts que abordam estas ferramentas:

3.3 – Metodologia

A metodologia é uma das seções mais importantes da trabalho, pois é nela que é demonstrado como os resultados da pesquisa serão obtidos. Esta seção do trabalho deve apresentar os métodos, procedimentos e ferramentas metodológicas que serão utilizados para alcançar os objetivos específicos da pesquisa (se houver) e os resultados pretendidos.

Pessoalmente, eu costumo seguir a seguinte linha de subtópicos:

3.3.1 – Tipo de pesquisa

Neste subtópico, o pesquisador deve fazer a caracterização metodológica da pesquisa. Uma referência interessante é o livro “Métodos de Pesquisa”, de Gerhardt e Silveira (2009), em que classificam a pesquisa científica a partir de quatro eixos: abordagem, natureza, objetivos e procedimentos. O livro “Architecture Research Methods”, de Groat e Wang (2013) também é uma referência importante para a delimitação metodológica da pesquisa.

3.3.2 – Estratégias metodológicas para alcançar os objetivos específicos

Em trabalhos de conclusão de curso de graduação e especialização, dissertações de mestrado e teses de doutorado, além do objetivo geral da pesquisa há os objetivos específicos, que são objetivos secundários e paralelos ao objetivo geral. Para verificar se eles são alcançáveis, é importante que o pesquisador associe uma estratégia metodológica para cada um deles. Pode-se fazer um quadro resumo, indicando os caminhos metodológicos que podem ser traçados para um, e que também ajudarão a conduzir a delimitação dos procedimentos metodológicos da pesquisa como um todo.

Associe uma estratégia metodológica para cada objetivo específico.

3.3.3 – Procedimentos metodológicos

Os procedimentos são as etapas metodológicas que visam alcançar objetivos específicos e obter dados/resultados para serem analisados e discutidos. A quantidade e tipos de procedimentos metodológicos variam de acordo com a natureza da pesquisa.

A revisão de literatura pode se enquadrar como um procedimento, mesmo que a pesquisa não tenha como intuito ser uma revisão de literatura. A construção do trabalho é feita, em todas as etapas, a partir de uma pesquisa bibliográfica prévia, e que precisa ser devidamente estruturada e descrita.

Por fim, mesmo que não seja um item obrigatório, é interessante fechar a seção com um diagrama ou mapa mental da estrutura da metodologia. Isto facilita que outras pessoas compreendam a sequência de etapas metodológicas. Você pode fazer no software que se sentir mais à vontade. No link a seguir, eu sugiro a utilização de duas ferramentas interessantes destinadas à elaboração de diagramas e mapas mentais, que podem ser úteis:

Exemplo de diagrama metodológico.

3.4 – Achados e Discussões

Nesta seção, o pesquisador deve apresentar os resultados obtidos a partir dos procedimentos apontados na metodologia. Os achados não devem ser somente descritivos (a não ser que esta seja a natureza da pesquisa), mas também analisá-los e critica-los à luz da literatura pesquisada, inclusive podendo fazer comparações com outros estudos, a fim de se ter um parâmetro de comparação e de julgamento do que foi obtido.

Lembre-se que não existem resultados bons ou ruins: existem apenas resultados, mesmo que não corroborem com as expectativas iniciais ou neguem uma possível hipótese. O resultado ruim é aquele mal obtido, sem seguir rigorosamente a metodologia escolhida. Caso seja observada alguma falha, ou que faltam parâmetros/dados para realizar a discussão, pode ser necessário revisar a metodologia, para verificar a necessidade de mais algum procedimento metodológico.

3.5 – Considerações Finais

Esta é a seção final de um trabalho acadêmico. Aqui, o autor deve fazer uma recapitulação geral do que foi a pesquisa, apontando a relevância dos achados, as contribuições e limitações da pesquisa, bem como possíveis encaminhamentos. Algumas perguntas podem ajudar a estruturar as considerações finais:

Algumas perguntas podem ajudar a desenvolver as considerações finais da pesquisa.

Parte 4 – Sobre o estilo de escrita científica

O ato de escrever um trabalho científico é diferente de um texto literário, pois é um trabalho essencialmente comunicativo – o objetivo não é ser uma leitura prazerosa, mas informar ao leitor uma série de dados e informações científicas relevantes. Ela também não é uma leitura do dia-a-dia: quem lê artigos, livros e cadernos técnico-científicos está à procura de informações que subsidiem suas próprias pesquisas.

Há textos, na área da arquitetura e urbanismo, que tratam da escrita científica: “Os 10 mandamentos (para escrever textos acadêmicos)”, de Hanson (1988); “Dicas de Redação”, de Holanda (2014), “Como definir o problema de pesquisa e escrever um texto científico”, de Netto (2014) e “Princípios para a Redação de uma Dissertação ou Tese”, de Villaça (2004). Mas algumas regras gerais, detalhadas por eles, podem ser resumidas aqui:

4.1 Escreva de maneira simples e clara

Seu texto precisa ser entendido, minimamente, por qualquer pessoa, mesmo que ela não tenha domínio técnico sobre o conteúdo. Se uma pessoa leiga consegue entender, em linhas gerais, o que é a sua pesquisa, você está conseguindo se expressar bem; Tente usar a menos quantidade de palavras para escrever uma determinada frase, para que sua leitura seja o mais direta e clara possível. Ao revisar o texto, verifique se há margem para reduções. Um bom texto é medido pela sua qualidade, e não pela quantidade de páginas.

4.2 Não use termos eruditos

O uso de palavras e expressões de difícil compreensão não vai fazer o seu texto parecer ser mais profundo, pelo contrário: vai apenas dificultar a leitura e o acesso à informação ali contida, tornando-o menos interessante de ler. Lembre-se que o texto científico é informativo e, portanto, precisa alcançar a maior quantidade possível de pessoas. Termos técnicos podem ser compreendidos se o autor inserir um glossário ao final do trabalho, quando aplicável.

4.3 Não use jargões informais e coloquiais

Por outro lado, deve-se evitar também o uso de expressões informais e coloquiais, a exemplo de gírias e “internetês”, bem como termos ditos chulos. O pesquisador deve escrever de maneira simples e clara, mas obedecendo as normas da língua portuguesa.

4.4 Evite vícios de linguagem

Algumas palavras ou expressões, mesmo que não se encaixem nos dois exemplos anteriores, devem ser evitados, pois tornam o texto mais cansativo de ler ou deselegante:

  • Não use “o(a) mesmo(a)” para se referir ao último sujeito da oração;
  • Expressões como “cada vez mais”, “como já foi dito anteriormente”, “como será mostrado posteriormente” são exemplos a serem evitados;
  • Evite também escrever verbos na primeira pessoa, para que o texto se torne o mais impessoal e imparcial possível.

4.5 Use de figuras, gráficos, quadros e tabelas

A escrita científica não é apoiada exclusivamente em palavras. Há informações que, para serem melhor compreendidas, requerem outras formas de expressão. Utilize figuras, mapas, gráficos, tabelas e quadros sempre que necessário. Informações gráficas também ajudam a sintetizar o conteúdo e podem ser a primeira informação a ser lida em algumas partes do texto. No campo da arquitetura e urbanismo, a expressão gráfica é um elemento essencial para a compreensão do espaço e deve ser devidamente explorada.

Se houver recursos financeiros suficientes, contratar um revisor de ortografia e formatação vai garantir que o trabalho tenha uma qualidade final melhor. Alguns periódicos exigem uma declaração de um revisor para que o artigo seja publicado.

Parte 5 – Sobre a apresentação ou defesa de um trabalho

A maioria das apresentações de trabalhos acadêmicos durante a graduação são curtas, durando entre 10 e 20 minutos (inclusive a apresentação da monografia). Portanto, algumas dicas podem ser sugeridas:

Sobre a postura de apresentação:

  • Controle o nervosismo: ninguém sabe mais do seu trabalho que você, nem mesmo seu orientador. Mantenha a calma e tranquilidade na apresentação. Se sentir nervosismo, foque em algum ponto na parede do fundo da sala.
  • Treine o tempo de apresentação em casa: procure regular o tempo com um relógio ou com o celular. Outra dica é pedir para alguém sinalizar o tempo para você;
  • Use linguagem corporal: gesticule, ande, tente sempre olhar para todas as direções que possuem expectadores. Observe os slides rapidamente, apenas para se situar com o conteúdo, ou leituras de tópicos.
  • Evite fazer leituras de slides: coloque tópicos, com frases ou palavras chave. Muitos textos acabam por conduzi-lo à leitura, passando a impressão de falta de domínio de conteúdo;
  • Cuidado com a postura: mantenha-se sempre de frente para a plateia e para a banca examinadora. Evite o uso de bonés ou chapéus;

Sobre o conteúdo da apresentação:

  • Foque em apresentar os pontos mais importantes do trabalho: em caso de um trabalho que requer a entrega de um volume escrito, a apresentação é apenas uma complementação do trabalho, e portanto deverá ser sucinta e apresentar os principais pontos. Verifique partes que são importantes de serem mostradas e aquelas que podem ser omitidas;
  • Use figuras, tabelas, quadros resumo e diagramas: são representação sintéticas de conteúdos que tornam a apresentação mais chamativa e interativa, e facilita o aprendizado do conteúdo resumido; Diagramas podem resumir uma grande quantidade de informações em um formato mais didático e menos cansativo de se ler;
  • Use uma quantidade racional de slides: quanto mais slides tiver, mais rápido terá de passar cada um, o que dificulta a leitura e compreensão por parte da banca e dos ouvintes. Um tempo médio de 1 minuto por slide de conteúdo e 30 segundos para slides com informações complementares é o suficiente.

Abaixo, tem-se uma recomendação de organização de tempo para uma apresentação de 10 e 20 minutos de duração, que pode ser adaptada de acordo com as características da banca ou do evento:

Para mais recomendações e dicas para apresentações de trabalhos (presenciais e online), recomendo a leitura dos posts abaixo:

Referências

CRESWELL, J. W.; CRESWELL, J. D. Projeto de Pesquisa: Métodos Quantitativo, Qualitativo e Misto. 5ª ed. Porto Alegre: Penso, 2021.

GERHARDT, T. E.; SILVEIRA, D. T. (Org.). Métodos de Pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/52806 Acesso em 13/03/2024.

GROAT, L.; WANG, D. Architectural Research Methods. 2nd ed. Hoboken: Wiley, 2013.

HANSON, J. Os 10 Mandamentos (para Escrever Textos Acadêmicos). Tradução: Frederico de Holanda. S.L.: 1988. Disponível em: https://www.academia.edu/42840867/Hanson_1988_10_mandamentos Acesso em 08/03/2024.

HOLANDA, F. R. B. Dicas de Redação. S.L.: 2014. Disponível em: https://www.academia.edu/32587893/DICAS_DE_REDA%C3%87%C3%83O Acesso em 05/03/2024.

NETTO, V. M. Como definir o problema de pesquisa e escrever um texto científico. S.L.: 2014. Disponível em: https://www.academia.edu/5626164/Como_definir_o_problema_de_pesquisa_e_escrever_um_texto_cient%C3%ADfico Acesso em 05/03/2024.

VILLAÇA, F. Princípios para a Redação de uma Dissertação ou Tese. S.L.: 2004. Disponível em: https://docplayer.com.br/9078851-Principios-para-a-redacao-de-uma-dissertacao-ou-tese.html Acesso em 05/03/2024.

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